Por que o caso “COE da Ambipar” chamou atenção?
Os Certificados de Operações Estruturadas (COEs) são instrumentos financeiros híbridos que combinam características de renda fixa e renda variável. A ideia é oferecer ao investidor a chance de retornos superiores aos tradicionais, mantendo certa estrutura de proteção. Mas nem sempre essa proteção é real ou suficiente.
O caso do COE da Ambipar provocou forte repercussão porque mostrou que este tipo de produto pode trazer perdas drásticas, justamente quando o risco de crédito da empresa emissora se deteriora. Empresas como Ambipar ou Braskem, ao enfrentarem dificuldades financeiras, fazem com que os COEs atrelados às suas dívidas percam valor de forma expressiva.
No caso da Ambipar, seus papéis de dívida começaram a ser negociados no mercado secundário com forte deságio. A empresa obteve tutela judicial para bloquear exigências de credores e isso foi interpretado como um indício de fragilidade financeira. Como consequência, seus títulos passaram a ser negociados a cerca de 13 % do valor de face. O COE da Ambipar, que replicava esses papéis de crédito, sofreu impacto proporcional — investidores perderam valores muito superiores ao que muitos esperavam.
Como funcionam os COEs de crédito
Nos COEs de crédito, a rentabilidade está ligada ao desempenho de títulos de dívida emitidos por uma empresa ou país. Se o emissor honrar seus compromissos, o retorno pode superar outros investimentos. Mas se enfrentar problema financeiro, atraso ou inadimplência da dívida, o investidor pode perder parte ou até o total investido.
Em muitos casos, os COEs divulgados como “capital protegido” não garantem proteção completa. Isso porque o contrato pode deixar claro que o capital está “em risco”, ou seja, sujeito a perdas em determinados eventos. Nos documentos chamados DIE (Documento de Informações Essenciais), é comum que conste a expressão “capital em risco” ou que o rendimento seja “condicional”.
Outra questão importante é a liquidez limitada desses produtos. Em geral, os COEs vinculados a crédito não permitem resgate antecipado sem forte deságio. Ou seja, mesmo antes de uma crise, o investidor pode ter dificuldades para sair sem prejuízo.
O que aconteceu exatamente com o COE da Ambipar
No caso específico do COE da Ambipar, a empresa entrou com uma tutela cautelar na Justiça para impedir a cobrança antecipada de credores. Isso gerou forte desconfiança de que uma reestruturação ou recuperação judicial viria — o que abalou o crédito da companhia. Seus títulos caíram drasticamente de valor no mercado secundário.
Os COEs que replicavam esses títulos reproduziram a desvalorização. Alguns investidores foram comunicados de que receberiam somente 6,88 % do valor investido, resultado de praticamente 93 % de perda.
Além disso, muitos investidores alegam que os riscos não foram explicados com clareza. Em contratos, estava prevista a possibilidade de liquidação antecipada do investimento em caso de deterioração do risco de crédito. O contrato, sob regulação da CVM e da B3, amparava a operação e limitava recursos legais dos investidores.
Lições e alertas para quem investe
O caso do COE da Ambipar trouxe aprendizados valiosos para qualquer investidor que busca segurança e rentabilidade. Apesar de parecer um produto sofisticado e bem estruturado, muitos investidores perceberam tarde demais que não compreendiam todos os riscos envolvidos. A seguir, estão as principais lições deixadas por esse episódio.
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Entenda profundamente o risco de crédito
Em um COE de crédito, o retorno depende diretamente da capacidade da empresa emissora do título de honrar suas dívidas. No caso da Ambipar, quando a companhia enfrentou dificuldades financeiras e buscou proteção judicial contra os credores, os títulos atrelados ao seu nome perderam quase todo o valor.
Isso mostra que, ao investir em produtos vinculados à dívida de uma empresa, é essencial analisar seu histórico, balanços, endividamento e perspectivas de mercado. Um COE pode parecer seguro, mas na prática carrega o mesmo risco do ativo que replica.
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Cuidado com a falta de liquidez
Muitos COEs têm prazos longos, que podem ultrapassar dez anos, e não oferecem mercado secundário ativo. Isso significa que o investidor não consegue resgatar o dinheiro antes do vencimento sem sofrer grandes perdas.
No COE da Ambipar, mesmo quando surgiram os primeiros sinais de crise, quem tentou vender antecipadamente descobriu que praticamente não havia compradores. O dinheiro ficou preso até a liquidação forçada do produto, quando as perdas já eram inevitáveis.
Por isso, é importante aplicar apenas valores que você pode deixar investidos por longos períodos e entender se existe possibilidade real de venda antes do vencimento.
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Desconfie de retornos muito acima da média
Retornos altos quase sempre vêm acompanhados de riscos proporcionais. No caso da Ambipar, os COEs prometiam cupons atrativos, mas dependiam da ausência de qualquer “evento de crédito” — como atrasos, reestruturações ou perdas de valor dos títulos da empresa.
Na prática, bastou uma mudança nas condições financeiras da companhia para que o cenário de ganhos se transformasse em prejuízo. É fundamental lembrar que, no mercado financeiro, rentabilidade esperada e risco andam lado a lado.
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Limite a exposição e diversifique seus investimentos
Produtos estruturados como o COE devem representar apenas uma pequena parte da carteira.
Muitos investidores concentraram valores elevados em poucos COEs e acabaram sofrendo perdas expressivas. Diversificar emissores, prazos e tipos de ativos é a forma mais eficiente de reduzir o impacto de um eventual problema.
Quem tinha uma carteira equilibrada entre renda fixa tradicional, fundos e ações conseguiu absorver melhor o impacto do COE da Ambipar.
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Prefira ativos líquidos e transparentes
Liquidez e transparência são os melhores aliados em momentos de crise.
Investimentos negociados em mercados abertos, como CDBs, títulos públicos ou fundos de investimento, permitem que o investidor acompanhe diariamente a cotação e realize o resgate quando necessário.
Já os COEs, especialmente os de crédito, são produtos de difícil precificação e baixa liquidez, o que torna quase impossível reagir a tempo diante de más notícias sobre o emissor. A lição é simples: em investimentos complexos, a falta de liquidez aumenta o risco.
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Leia o Documento de Informações Essenciais (DIE)
Antes de aplicar, é fundamental ler com atenção o DIE — documento obrigatório que resume as principais características e riscos do produto.
Muitos investidores afetados pelo COE da Ambipar acreditavam ter aplicado em uma modalidade “com capital protegido”, quando, na realidade, o DIE indicava claramente “capital em risco”.
Esse tipo de leitura evita mal-entendidos e ajuda a perceber se o investimento realmente se encaixa no seu perfil de risco.
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Busque orientação independente
Assessores e instituições financeiras recebem comissões pela venda de COEs, o que pode gerar conflito de interesse.
Buscar uma consultoria independente, sem vínculo com o emissor, é a melhor forma de garantir uma análise imparcial. Um consultor autônomo pode ajudar a comparar alternativas, identificar riscos e calcular se o retorno compensa a exposição.
O caso do COE da Ambipar mostrou que, em muitos momentos, a promessa de rentabilidade “turbinada” era mais vantajosa para quem vendia o produto do que para quem investia nele.
Conclusão
O caso do COE da Ambipar mostrou que rentabilidade alta e segurança raramente andam juntas. Muitos investidores acreditaram estar aplicando em algo protegido, mas descobriram, tarde demais, que o risco de crédito era real e as perdas podiam ser quase totais.
Esses produtos são complexos, pouco transparentes e de baixa liquidez, o que os torna inadequados para quem busca estabilidade e previsibilidade. Para a maioria dos investidores, é mais prudente optar por alternativas simples, líquidas e seguras.
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