Warren Buffett: A Trajetória e as Lições do Maior Investidor de Todos os Tempos

Warren Edward Buffett é considerado um dos maiores investidores do mercado financeiro global e também uma das pessoas mais ricas do planeta. Com uma fortuna estimada em US$ 131,8 bilhões em 2024, segundo o ranking da Forbes, Buffett consolidou sua reputação como um investidor brilhante e um dos principais expoentes da filosofia de value investing.
Atuando como presidente e principal acionista da Berkshire Hathaway, Buffett administra um portfólio vasto de investimentos que inclui participações em empresas icônicas como Apple, Coca-Cola, Visa e Kraft-Heinz. Seu estilo de investimento focado no longo prazo e sua habilidade de tomar decisões racionais lhe renderam o apelido de Oráculo de Omaha.
Neste artigo, exploraremos a vida de Warren Buffett, sua trajetória, princípios de investimento e o legado que ele construiu ao longo das décadas.
Como Warren Buffett começou e construiu sua fortuna
Infância e primeiros passos nos investimentos
Nascido durante a Grande Depressão, Warren Buffett cresceu em um ambiente familiar que influenciaria sua trajetória. Seu pai, Howard Buffett, era corretor de ações e, após perder o emprego, decidiu empreender, fundando sua própria empresa de investimentos. Sua mãe, Leila, administrava a casa.
Aos sete anos, Buffett pegou emprestado na biblioteca um livro que mudaria sua visão sobre dinheiro: 1.000 formas de ganhar US$ 1.000, de Frances Mianker. Fascinado pelo tema, passou a devorar todos os livros de investimentos disponíveis, incluindo os da biblioteca particular de seu pai.
Com apenas 11 anos, fez sua primeira compra na bolsa: três ações da Cities Service, empresa que, anos depois, se tornaria a Citgo, uma gigante do setor de refino e distribuição de combustíveis.
Empreendedor desde a infância
Além do interesse precoce por investimentos, Buffett sempre teve o desejo de ganhar dinheiro. Para complementar os cinco centavos de dólar que recebia por semana, tornou-se entregador de jornais e vendedor ambulante, comercializando de chicletes a garrafas de Coca-Cola.
Aos 13 anos, fez sua primeira declaração de imposto de renda e conseguiu uma restituição de US$ 35, alegando o uso da bicicleta e do relógio para seu trabalho de entregas. Dois anos depois, já faturava US$ 175 por semana e investiu parte desse valor na compra de máquinas de pinball junto com um amigo, instalando-as em salões de beleza de Omaha. No mesmo ano, vendeu o negócio por US$ 1.200.
Ao final da adolescência, graças a seus investimentos e negócios, acumulava US$ 9.800 – o equivalente a mais de US$ 100 mil em valores atuais.
A influência de Benjamin Graham e a rejeição de Harvard
Pressionado pelo pai, Buffett interrompeu momentaneamente seus negócios para ingressar na Universidade da Pensilvânia, onde estudou administração. No entanto, ansioso para voltar ao mercado, transferiu-se para a Universidade de Nebraska e concluiu o curso em apenas três anos.
Seu próximo passo acadêmico foi frustrante: Harvard o rejeitou, decisão que ele posteriormente classificou como “a melhor coisa que poderia ter acontecido”. Como alternativa, escreveu diretamente para David Dodd, economista da Universidade de Columbia, manifestando interesse em ser seu aluno. Foi aceito e, lá, conheceu Benjamin Graham, o “pai do value investing”.
A influência de Graham foi determinante para Buffett consolidar seu estilo de investimento, focado na análise detalhada das empresas e na compra de ativos subvalorizados. Mais tarde, ele ajustaria essa estratégia, admitindo que investir em boas empresas, mesmo que a preços elevados, poderia ser vantajoso.
“Era como ter aulas de beisebol com um craque”, relembrou Buffett ao comentar sua experiência com Graham.
Criação da Berkshire Hathaway
Ao concluir os estudos, Buffett trabalhou como analista na empresa de Graham. Depois de dois anos, voltou para Omaha e fundou sua própria empresa de investimentos, a Buffett Partnership Ltda., com um capital inicial de US$ 105.100.
Em poucos anos, a empresa obteve retornos impressionantes, superando amplamente o índice Dow Jones. Em 1962, o fundo de Buffett já valia US$ 7 milhões. Durante esse período, ele conheceu Charles Munger, que se tornaria seu parceiro de negócios e um dos maiores influenciadores de sua filosofia de investimento.
Em 1965, Buffett assumiu o controle da Berkshire Hathaway, então uma decadente empresa têxtil, e a transformou em uma das holdings mais valiosas do mundo. Ele diversificou os investimentos da empresa, adquirindo seguradoras e empresas de consumo e tecnologia.
O Método Warren Buffett de Investir
O tempo e os juros compostos são os maiores aliados do investidor paciente. Em suas palestras, Buffett costuma citar uma frase atribuída a Albert Einstein: “Os juros compostos são a força mais poderosa do universo”.
Para explicar esse conceito de forma simples, imagine que você coloca um centavo em um cofrinho hoje e, todos os dias, dobra o valor guardado. No segundo dia, seriam dois centavos; no terceiro, quatro; no quarto, oito, e assim por diante. Parece pouco no começo, mas, em apenas um mês, o valor acumulado ultrapassaria milhões de reais. Esse exemplo mostra como o crescimento exponencial pode gerar resultados impressionantes em pouco tempo.
Para permitir que os juros compostos façam sua mágica, Buffett adota a estratégia buy and hold: aproveita as quedas do mercado para adquirir ações de empresas nas quais acredita e mantém seus investimentos por décadas, mexendo muito pouco em seu portfólio.
O impacto dessa filosofia é evidente: 99% de sua fortuna foi acumulada após os 50 anos.
O Poder do Conhecimento
Nas aulas com Benjamin Graham, Buffett aprendeu a investir em empresas que estavam sendo vendidas por um valor menor do que realmente valiam. Para isso, ele analisava com atenção os balanços financeiros, a gestão da empresa, o mercado em que atuava e seus resultados. Seu foco sempre foi investir com segurança, pensando em manter esses investimentos por muitos anos.
Buffett dedica a maior parte do tempo lendo no escritório, estudando jornais, revistas e relatórios financeiros. Ele também sabe onde não deve investir, evitando setores que não entende bem.
Essa disciplina trouxe grandes retornos, mas também o fez perder algumas oportunidades. Um exemplo é a Amazon. Buffett admitiu que não percebeu o potencial da empresa no início e só investiu nela em 2019.
Proteção dos Negócios: O “Fosso Econômico”
Buffett construiu seu império investindo em empresas com marcas consolidadas e vantagens competitivas duradouras, como Coca-Cola, Kraft-Heinz, Visa e Apple. Ele compara essas empresas a castelos cercados por um fosso, que protege seu domínio e impede concorrentes de ameaçá-las.
Um exemplo claro? Se um consumidor paga mais por um iPhone do que por um Android de características semelhantes apenas pelo prestígio da marca Apple, isso indica que a empresa possui um “fosso econômico” forte, um fator crucial para atrair seu interesse.
Apesar de hoje ser conhecido por grandes aquisições, como sua parceria com o 3G Capital de Jorge Paulo Lemann para controlar a Kraft-Heinz, Buffett começou investindo em negócios pequenos e subvalorizados. Uma dessas “pechinchas” foi uma empresa têxtil centenária em dificuldades financeiras, cujo nome, anos depois, se tornaria sinônimo de sucesso no mercado de capitais: Berkshire Hathaway.
Berkshire Hathaway: De Empresa Têxtil a Gigante dos Investimentos
A companhia que hoje simboliza excelência no mundo dos investimentos teve origens humildes no setor têxtil, quase cem anos antes do nascimento de Warren Buffett. Sua transformação em uma holding avaliada em US$ 500 bilhões foi consequência de uma decisão movida pela emoção – um episódio raro na trajetória do investidor conhecido por sua racionalidade.
A Aquisição da Berkshire: Um Erro de Buffett
A história teve início em 1962, quando Buffett percebeu uma oportunidade de investimento na Berkshire Hathaway. Ele decidiu comprar a empresa, que enfrentava dificuldades, mas ainda apresentava potencial para gerar lucro. No caso da Berkshire, a expectativa estava na valorização por meio da recompra de ações.
Ele percebeu que a administração da empresa costumava recomprar papéis sempre que fechava uma unidade fabril, um reflexo das dificuldades enfrentadas pela companhia no período pós-guerra. A situação financeira não inspirava otimismo, mas Buffett viu uma oportunidade.
No entanto, em 1964, um desentendimento com a diretoria mudou tudo. Após uma negociação verbal para vender suas ações a US$ 11,50 por papel, a empresa formalizou uma oferta ligeiramente menor, de US$ 11,375. A diferença mínima não era o problema – o sentimento de traição foi.
A recusa da oferta veio logo após a morte de seu pai, aumentando sua irritação. Movido pela emoção, Buffett decidiu assumir o controle da Berkshire em 1965 e demitiu a diretoria.
O próprio investidor classificou essa decisão como “um erro colossal”, pois a aquisição interrompeu o crescimento exponencial de seus investimentos e atrasou seu acúmulo de capital via juros compostos.
Transformação em Holding e o Setor de Seguros
Em 1969, Buffett encerrou a Buffett Partnership Ltda. e voltou toda a sua atenção para a Berkshire Hathaway, que ainda atuava no setor têxtil. Foi nesse momento que ele tomou uma das decisões mais marcantes de sua carreira: entrar no setor de seguros.
Buffett entendia bem como esse mercado funcionava e soube aproveitar sua principal vantagem — o float, ou seja, o dinheiro que as seguradoras recebem antes de pagar sinistros. Ele utilizava esse capital temporário para investir em outras oportunidades do mercado, o que impulsionou o crescimento da Berkshire e a transformou em uma holding robusta.
Apesar de as operações têxteis terem continuado até 1985, sua importância foi diminuindo. A empresa se consolidou como um conglomerado com foco em seguros, bancos, bens de consumo e tecnologia.
Nas décadas seguintes, Buffett fez aquisições estratégicas que transformaram a Berkshire Hathaway em um verdadeiro império. O portfólio passou a incluir grandes nomes, como:
- Setor Financeiro: Wells Fargo, Goldman Sachs, JP Morgan Chase, Bank of America, Visa, Mastercard e Moody’s.
- Marcas de Consumo: Coca-Cola, Kraft-Heinz, Mondelez e Johnson & Johnson.
- Empresas Globais: Delta Airlines, American Airlines e General Motors.
- Maior Aposta Recente: Desde 2019, a Apple se tornou o principal investimento da holding, representando 45% do portfólio.
Com valor de mercado de US$ 871 bilhões em abril de 2024, a Berkshire Hathaway está entre as dez maiores empresas do S&P 500.
Uma Gigante com Gestão Enxuta
Apesar de ser uma gigante do mercado, a sede da Berkshire Hathaway, em Omaha, Nebraska, está longe dos imponentes arranha-céus de Wall Street. A estrutura simples da empresa reflete a filosofia minimalista de Buffett.
- Sem departamentos tradicionais: A companhia opera sem áreas comuns em grandes empresas, como Recursos Humanos, Relações com Investidores ou Relações Públicas.
- Sem reuniões com analistas: Buffett evita encontros para explicar decisões ao mercado, focando no que realmente importa para o crescimento do negócio.
- Aprendizados em tempos de crise: Pelas paredes do escritório, há capas de jornais destacando grandes crises financeiras, um lembrete constante de que períodos turbulentos fazem parte do mercado.
A Conferência Anual: Uma Celebração para Acionistas
O que começou como uma assembleia simples se transformou em um dos eventos mais esperados do mercado financeiro. Todos os anos, em maio, acionistas da Berkshire Hathaway viajam a Omaha para participar da conferência anual, que vai muito além de um encontro corporativo tradicional.
Cada acionista tem direito a quatro convites para o evento, sem as restrições comuns em grandes empresas. Durante esse período, a cidade de Omaha se transforma, oferecendo competições esportivas, encontros entre subsidiárias e diversos eventos paralelos, tornando a experiência ainda mais completa.
O momento mais aguardado é quando Warren Buffett, responde a perguntas sobre investimentos, economia e até questões políticas.
Para quem não consegue participar pessoalmente, Buffett publica sua carta anual aos acionistas. Esse documento é um dos mais esperados do mercado, onde ele compartilha lições valiosas, princípios de investimento e suas reflexões sobre o futuro da empresa.
Acertos e Erros ao Longo da Carreira
Mesmo sendo um dos investidores mais respeitados do mundo, Buffett nunca esconde seus erros — na verdade, ele faz questão de compartilhá-los. Seu sonho sempre foi ser professor, e ele usa palestras e cartas anuais como uma forma de ensinar investidores.
Em 2015, ao comemorar 50 anos no comando da Berkshire Hathaway, Buffett listou alguns de seus maiores erros. O mais caro de todos? A própria compra da Berkshire Hathaway.
- Custo estimado do erro: US$ 200 bilhões.
- Razão: Uma decisão emocional, motivada por ressentimento, que acabou atrasando o crescimento acelerado de seu patrimônio.
- O que Buffett disse sobre a aquisição: “Foi uma decisão absurdamente estúpida.”
Apesar desse deslize, a transformação da Berkshire Hathaway sob sua liderança continua sendo um dos exemplos mais impressionantes da história dos investimentos.
O Escândalo de Wall Street que Testou a Reputação de Warren Buffett
Warren Buffett sempre evitou se envolver diretamente com Wall Street e seus negócios especulativos. No entanto, uma de suas decisões mais controversas foi a aquisição de uma participação no Salomon Brothers, um dos maiores bancos de investimento dos Estados Unidos. A escolha surpreendeu até seus parceiros mais próximos e, com o tempo, revelou-se um erro estratégico.
O pior cenário se confirmou em 1991, quando um escândalo abalou a instituição. Um trader do banco foi flagrado fraudando o mercado de títulos do Tesouro dos Estados Unidos, manipulando compras para adquirir mais ativos do que permitido por lei. A descoberta levou a uma investigação governamental, resultando em uma crise de credibilidade que quase levou o Salomon Brothers à falência.
A reputação da Berkshire Hathaway também foi impactada, já que Warren Buffett era um dos principais acionistas. A situação o fez reforçar um de seus princípios mais repetidos até hoje: são necessários 20 anos para construir uma reputação, mas apenas cinco minutos para destruí-la.
O Papel de Warren Buffett na Crise
Diante do risco de colapso, Buffett tomou uma atitude incomum e assumiu a presidência do conselho do banco, buscando restaurar a confiança do mercado. Em um depoimento ao Congresso dos Estados Unidos, reconheceu publicamente os erros da instituição e reafirmou seu compromisso com transparência e ética nos negócios.
Além disso, fez um pedido direto ao secretário do Tesouro, Nick Brady, para que suspendesse as punições contra o Salomon Brothers e evitasse sua falência, preservando milhares de empregos. O governo aceitou, mas não pela empresa em si – e sim porque confiava na integridade de Buffett.
Apesar de ter conseguido conter a crise, Buffett classificou sua entrada no Salomon Brothers como um dos maiores erros de sua carreira. Desde então, reforçou sua aversão a negócios especulativos e manteve distância de instituições financeiras tradicionais que não atendem aos seus critérios de investimento.
A Filosofia de Warren Buffett: Ir Contra a Manada
Buffett construiu sua fortuna contrariando a lógica do mercado e evitando decisões baseadas em euforia ou pânico. Ele segue a estratégia conhecida como “contrarian investing”, que consiste em agir de forma oposta à maioria dos investidores. Sua abordagem pode ser resumida em uma de suas frases mais conhecidas:
“Seja cauteloso quando os outros são gananciosos, e seja ganancioso quando os outros estão cautelosos.”
Um dos exemplos mais marcantes dessa mentalidade ocorreu durante a crise financeira de 2008. Enquanto grandes bancos e gestoras entravam em colapso e vendiam ativos a preços de liquidação, Buffett manteve a calma e usou a liquidez da Berkshire Hathaway para realizar investimentos estratégicos e fornecer capital a instituições financeiras em dificuldades.
Os Principais Movimentos de Buffett na Crise de 2008
- Goldman Sachs: Investiu US$ 5 bilhões em ações preferenciais, garantindo retorno fixo e participação nos lucros.
- Bank of America: Aplicou US$ 5 bilhões em condições extremamente favoráveis, fortalecendo sua posição no setor bancário.
Esses investimentos renderam mais de US$ 10 bilhões em lucros nos cinco anos seguintes, incluindo dividendos e ganhos de capital.
A estratégia reforçou sua filosofia de que os melhores momentos para investir ocorrem quando o mercado está em pânico. Enquanto muitos venderam seus ativos a preços baixos, Buffett viu uma oportunidade e fez movimentos que se mostraram altamente lucrativos.
Seu sucesso contínuo comprova que, no mundo dos investimentos, paciência e disciplina valem mais do que seguir tendências passageiras.
Filantropia e Legado
Buffett é conhecido não apenas por seu sucesso financeiro, mas também por sua filantropia. Em 2006, ele anunciou que doaria mais de 99% de sua fortuna para a caridade, sendo a maior parte destinada à Bill & Melinda Gates Foundation.
Junto com Bill Gates, ele criou o The Giving Pledge, um compromisso para que bilionários doem parte de suas fortunas para causas beneficentes. Entre os signatários estão Mark Zuckerberg e Elon Musk.
Conclusão
Warren Buffett é um exemplo de investidor disciplinado, racional e paciente. Sua capacidade de enxergar valor onde poucos veem e sua estratégia de longo prazo fizeram dele um dos homens mais ricos e respeitados do mundo.
Mesmo com um império bilionário, ele leva uma vida simples em Omaha e continua ensinando sobre investimentos e ética nos negócios. Seu legado vai muito além do mercado financeiro, influenciando gerações de investidores e filantropos ao redor do mundo.
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