Quais Ações se Valorizam Durante a Copa do Mundo?
A Copa do Mundo é muito mais do que um evento esportivo. A cada quatro anos, bilhões de pessoas ao redor do mundo param para acompanhar os jogos, torcer pelas seleções nacionais e viver intensamente cada partida. Mas poucos investidores param para pensar: o que acontece com o mercado financeiro durante esse período?
A resposta não é simples. Ao contrário do que muitos imaginam, a Copa do Mundo não faz a bolsa de valores subir de forma generalizada. O que a ciência financeira mostra é algo mais surpreendente: o resultado dos jogos afeta diretamente o humor dos investidores, e esse humor se reflete nos preços das ações. Neste artigo, vamos explicar esse fenômeno com base em evidências acadêmicas e indicar quais setores tendem a se beneficiar durante o torneio.
O Que a Ciência Diz Sobre Copa do Mundo e Mercado Financeiro
Um estudo publicado no Journal of Finance — um dos periódicos mais respeitados do mundo em finanças — investigou justamente essa relação. Os pesquisadores Alex Edmans, Diego García e Øyvind Norli analisaram os resultados de mais de 1.100 partidas de futebol internacional em 39 países, entre 1973 e 2004, cruzando esses dados com os retornos das bolsas de valores locais no dia seguinte.
A conclusão foi clara e estatisticamente robusta: quando uma seleção nacional perde uma partida importante, a bolsa de valores daquele país cai no dia seguinte. O efeito é especialmente forte nas eliminações da Copa do Mundo: uma derrota nessa fase está associada a uma queda média de 0,49 ponto percentual no índice da bolsa local no pregão seguinte.
Para colocar esse número em perspectiva: os autores calculam que, em termos mensais, o excesso de retorno associado a uma derrota equivale a mais de 7% negativos. No caso do mercado britânico, por exemplo, 0,40 ponto percentual da capitalização de mercado representava, em 2005, cerca de US$ 11,5 bilhões — aproximadamente três vezes o valor de mercado total dos clubes da Premier League inglesa na época.
Por Que o Futebol Mexe com o Mercado Financeiro?
A explicação não está nos impactos econômicos diretos do futebol — como venda de ingressos ou receitas de patrocínio — mas sim no comportamento dos investidores. O futebol, especialmente em uma Copa do Mundo, afeta profundamente o humor de uma parcela significativa da população de um país ao mesmo tempo. E humor afeta decisões financeiras.
A pesquisa mostra que esse efeito não pode ser explicado por fatores econômicos racionais. Os autores testaram se as quedas poderiam ser resultado de menor produtividade ou de receitas reduzidas das empresas. Os dados rejeitaram essa hipótese: o impacto é grande demais para ser explicado por variáveis econômicas concretas. A conclusão é que o efeito é comportamental — resultado direto da mudança no humor dos investidores após uma derrota.
Outro dado revelador: não foram encontradas altas significativas na bolsa após vitórias. O efeito é assimétrico — derrotas derrubam o mercado, mas vitórias não o elevam na mesma proporção. Isso é coerente com a teoria do prospecto, de Kahneman e Tversky, que mostra que as pessoas sentem as perdas de forma muito mais intensa do que os ganhos.
O estudo também verificou que o efeito é mais forte em ações de menor capitalização (small caps), justamente porque essas ações são mais negociadas por investidores locais — que são exatamente os torcedores afetados pelo resultado da partida — e são mais sensíveis ao sentimento do mercado.
Quais Setores Tendem a se Beneficiar Durante a Copa do Mundo?
Embora o efeito no índice geral da bolsa seja predominantemente ligado ao humor pós-derrota, existem setores específicos que se beneficiam do aumento do consumo e da audiência durante o torneio. Veja os principais:
1. Varejo de Eletrônicos e Eletrodomésticos
A Copa do Mundo é um dos maiores gatilhos de consumo de televisores no mundo. Famílias aproveitam o evento para trocar ou adquirir aparelhos maiores e com melhor qualidade de imagem. Esse movimento impacta positivamente empresas de varejo de eletrônicos e fabricantes de TV. No Brasil, varejistas listados na B3 como o Magazine Luiza historicamente registram aumento nas vendas nesse período.
2. Bebidas e Alimentação
O consumo de bebidas — especialmente cervejas — dispara durante os jogos. As grandes cervejarias são patrocinadoras históricas da Copa do Mundo e se beneficiam tanto da visibilidade de marca quanto do aumento direto nas vendas. No Brasil, a Ambev (ABEV3) é o exemplo mais evidente: a empresa possui marcas líderes de mercado e se beneficia de forma consistente em períodos de grandes eventos esportivos.
3. Mídia, Televisão e Publicidade
A Copa do Mundo é o evento com maior audiência televisiva do planeta. A final entre Brasil e Alemanha em 2002, por exemplo, foi assistida por mais de 1 bilhão de pessoas. Emissoras e plataformas de streaming que detêm os direitos de transmissão faturam cifras expressivas em publicidade. Com a ascensão do streaming, plataformas que adquirem direitos de exibição passam a ser cada vez mais relevantes nesse contexto.
4. Apostas Esportivas
O setor de apostas esportivas cresce de forma acelerada e a Copa do Mundo é o seu principal evento. Empresas globais como Flutter Entertainment registram volumes recordes de apostas durante o torneio. No Brasil, com a regulamentação das apostas esportivas em vigor, esse mercado ganhou ainda mais relevância para os investidores nacionais.
5. Artigos Esportivos e Patrocinadores Oficiais
Empresas como Adidas, Nike e Coca-Cola investem bilhões em patrocínio da Copa do Mundo justamente porque o retorno em exposição e vendas justifica o custo. As vendas de camisas oficiais das seleções aumentam significativamente durante o torneio, e quanto mais países participam, maior o mercado consumidor. Com 48 seleções na Copa de 2026 — um número inédito — esse efeito tende a ser ainda mais pronunciado.
O Que o Estudo Acadêmico Ensina ao Investidor Brasileiro?
A pesquisa de Edmans, García e Norli traz lições práticas valiosas para quem acompanha o mercado financeiro durante a Copa do Mundo:
Primeira lição: fique atento às eliminações. A queda mais expressiva no mercado ocorre justamente quando a seleção do país é eliminada — especialmente em fases avançadas. Esse é o momento de maior impacto no humor do investidor local. Para o Brasil, com sua paixão pelo futebol entre as maiores do mundo, uma eliminação precoce pode representar um evento de atenção extra para quem acompanha ações de menor capitalização.
Segunda lição: o efeito é temporário. A pesquisa também identificou uma leve recuperação do mercado nos pregões seguintes à queda. Ou seja, o impacto da derrota é pontual — o mercado absorve a emoção e retorna ao seu comportamento normal em poucos dias. Isso significa que investidores de longo prazo não precisam tomar decisões precipitadas com base em resultados esportivos.
Terceira lição: humor e razão não andam juntos no mercado. Um dos achados mais importantes do estudo é que o efeito das derrotas no mercado independe do quanto a derrota era esperada. Mesmo quando o adversário era claramente mais forte, a queda ocorria. Isso ilustra um princípio central das finanças comportamentais: os investidores não são completamente racionais. Emoções afetam decisões financeiras — e reconhecer isso é uma vantagem.
Quarta lição: small caps são mais sensíveis. O estudo mostrou que as ações de menor capitalização são mais afetadas do que as grandes empresas. Isso ocorre porque ações menores são predominantemente compradas por investidores locais — os mesmos que acompanham apaixonadamente os jogos da seleção. Quem tem exposição a small caps durante a Copa deve estar ciente desse risco adicional.
Copa do Mundo 2026: O Que Esperar do Mercado?
A Copa do Mundo de 2026 traz características inéditas. Pela primeira vez, 48 seleções disputarão o torneio — ante as 32 das edições anteriores — e o evento será realizado simultaneamente em três países: Estados Unidos, Canadá e México. Mais times, mais jogos, mais público e mais consumo.
Para o investidor brasileiro, o formato ampliado pode potencializar os efeitos descritos pelo estudo acadêmico. Com a seleção brasileira participando do torneio, os mercados nacionais estarão sensíveis ao desempenho do time — e quanto mais longe o Brasil avançar, maior será o impacto potencial de uma eventual eliminação. Ao mesmo tempo, setores como bebidas, varejo e mídia tendem a se beneficiar enquanto a seleção permanecer viva na competição.
O torneio também movimenta fortemente o setor de turismo americano, com impactos sobre companhias aéreas, redes hoteleiras e empresas de entretenimento nos países-sede. Para investidores com acesso a BDRs (Brazilian Depositary Receipts) na B3, essas empresas internacionais podem representar oportunidades interessantes de análise.
Conclusão: Investir com Inteligência Durante a Copa do Mundo
A Copa do Mundo impacta o mercado financeiro de formas que vão além do óbvio. O principal efeito documentado pela ciência não é a alta das ações de empresas ligadas ao futebol, mas sim a queda do mercado local após derrotas — resultado direto do impacto emocional nos investidores. Esse fenômeno é real, mensurável e independente de fatores econômicos objetivos.
Conhecer esses setores é útil para entender a dinâmica do mercado durante o torneio — mas isso não significa que você deve movimentar a sua carteira com base no calendário da Copa. Tentar antecipar valorizações pontuais de ações específicas é uma prática arriscada e geralmente ineficiente para o investidor comum. O próprio estudo acadêmico alerta que o mercado já tende a precificar expectativas antes dos eventos, o que reduz o potencial de ganho para quem entra tarde.
A principal lição que a pesquisa deixa é comportamental: não deixe que a emoção do torcedor contamine as decisões do investidor. Seja após uma vitória animadora ou uma eliminação dolorosa, o mais sensato é manter a estratégia definida e evitar tomar decisões financeiras no calor do momento. Mercados passam. Estratégias sólidas ficam.
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