O Efeito Lindy nos Investimentos: O que dura tende a durar

Quando se trata de tomar decisões de investimento, muitos fatores entram em jogo: análise de empresas, avaliação de riscos, diversificação, timing de mercado, entre outros. Mas existe um conceito menos conhecido, vindo do mundo das ideias e da filosofia, que pode ajudar muito na hora de escolher onde colocar seu dinheiro. Esse conceito se chama Efeito Lindy.
Apesar do nome parecer complicado, o Efeito Lindy é uma ideia simples e poderosa: quanto mais tempo algo sobreviveu, maior a chance de continuar existindo por muito tempo no futuro. Em outras palavras, a longevidade passada é um bom indicativo de longevidade futura.
Neste artigo, vamos entender o que é o Efeito Lindy, de onde ele veio, como ele se aplica ao mundo dos investimentos e por que adotar essa mentalidade pode ajudar você a tomar decisões mais inteligentes e seguras com seu dinheiro.
O que é o Efeito Lindy?
O termo “Efeito Lindy” foi popularizado pelo escritor e ensaísta Nassim Taleb, autor de livros como A Lógica do Cisne Negro e Antifrágil. Mas a ideia original surgiu em uma conversa entre comediantes nos anos 1960 em um restaurante chamado Lindy’s, em Nova York. Eles notaram que, na televisão, os programas que já estavam no ar há bastante tempo tendiam a permanecer no ar por mais tempo do que os programas novos.
A lógica é contraintuitiva. Estamos acostumados a pensar que o “novo” é melhor. Novas tecnologias, novos produtos, novas ideias. Mas o Efeito Lindy propõe o contrário: o que é antigo e ainda está de pé passou pelo teste do tempo, e isso é uma forma poderosa de validação.
Se uma ideia, um livro, uma tecnologia ou até mesmo uma empresa sobreviveu por décadas ou séculos, é provável que continue relevante no futuro. Isso acontece porque o tempo age como um filtro: tudo que é fraco, ineficiente ou irrelevante tende a desaparecer.
Efeito Lindy e Investimentos: qual a relação?
Agora que você entendeu a ideia central do Efeito Lindy, vamos aplicá-la ao mundo dos investimentos. Em um mercado cheio de promessas de retornos rápidos, novas empresas “da moda” e inovações disruptivas, o Efeito Lindy nos convida a olhar para o que já se provou resiliente ao longo do tempo.
1. Empresas que existem há décadas
Uma empresa que sobreviveu a várias crises econômicas, mudanças políticas, avanços tecnológicos e transformações sociais tem mais chances de continuar existindo no futuro. Pense em empresas como Coca-Cola, Johnson & Johnson, Procter & Gamble, Nestlé, Itaú, Ambev. Todas passaram por guerras, inflação, recessões e continuam de pé.
Essas empresas têm um histórico longo de sucesso, estabilidade e adaptação. O Efeito Lindy sugere que, por já terem resistido por tanto tempo, há uma boa chance de que resistam ainda mais.
Investidores como Warren Buffett usam essa lógica há décadas. Ele prefere investir em negócios simples, compreensíveis, com marcas fortes e histórico de lucros consistentes. Isso é aplicar o Efeito Lindy na prática.
2. Setores tradicionais da economia
Nem todo investimento precisa estar em tecnologia de ponta, inteligência artificial ou criptomoedas. Setores como alimentos, energia, saúde e serviços financeiros existem há séculos e continuarão a existir. Todo mundo precisa comer, ter acesso à energia, cuidar da saúde e movimentar dinheiro.
Isso não significa ignorar a inovação, mas sim reconhecer que muitos setores “velhos” ainda são extremamente relevantes e estáveis. O Efeito Lindy mostra que o velho nem sempre é ultrapassado, às vezes, é simplesmente resistente.
3. Fundos de índice e estratégias de longo prazo
Outra aplicação interessante do Efeito Lindy está na maneira como se investe, não só no que se investe. Estratégias como buy and hold (comprar e segurar ações por longos períodos), diversificação global e aportes regulares ao longo do tempo são práticas que existem há décadas e continuam funcionando.
O próprio conceito de fundos de índice (ETFs), como o S&P 500 nos Estados Unidos ou o BRAX11 no Brasil, é uma forma de investir em empresas sólidas e longevas. Esses índices são compostos por empresas que passaram pelo teste do tempo e continuam se adaptando.
A paciência é, muitas vezes, mais poderosa do que a pressa. Investidores que seguem estratégias simples e consistentes, baseadas no tempo, tendem a se sair melhor do que aqueles que vivem trocando de ativos tentando prever o mercado.
O que o Efeito Lindy NÃO é
É importante entender o que o Efeito Lindy não significa:
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Não é uma regra absoluta. Só porque algo é antigo não quer dizer que vai durar para sempre. Muitas empresas antigas desapareceram por não se adaptarem.
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Não é resistência à inovação. Novas tecnologias podem ser excelentes oportunidades de investimento, desde que avaliadas com cuidado. O Efeito Lindy serve como um filtro de cautela, não como uma rejeição ao novo.
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Não substitui análise. O fato de uma empresa ser antiga não elimina a necessidade de estudar seus números, sua gestão e suas perspectivas.
O segredo está no equilíbrio: usar o Efeito Lindy como uma lente para entender melhor o risco e a durabilidade dos investimentos, sem deixar de lado o bom senso e a análise crítica.
Benefícios de aplicar o Efeito Lindy ao investir
1. Redução do risco
Ao escolher empresas ou setores que já provaram sua capacidade de sobrevivência, você reduz a chance de investir em algo que pode desaparecer da noite para o dia. Isso é especialmente importante para investidores conservadores ou iniciantes.
2. Maior previsibilidade
Negócios maduros e bem estabelecidos tendem a ter receitas mais estáveis, pagar dividendos regulares e oferecer mais previsibilidade nos resultados. Isso ajuda o investidor a ter uma noção mais clara do que esperar no longo prazo.
3. Menor ansiedade
Quando você investe em ativos que seguem o Efeito Lindy, a necessidade de ficar acompanhando o mercado todos os dias diminui. Isso evita decisões precipitadas motivadas pelo medo ou pela euforia.
4. Simplicidade
Muitas vezes, o melhor investimento não é o mais sofisticado ou tecnológico, mas o mais simples de entender. Empresas que fazem produtos que você usa no dia a dia, que têm modelos de negócio claros e fáceis de explicar, tendem a ser mais seguras.
Exemplos práticos de Efeito Lindy no mercado
Vamos ver alguns exemplos reais que ilustram bem como o Efeito Lindy se manifesta nos investimentos:
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Berkshire Hathaway (BRK.A): A holding de Warren Buffett investe majoritariamente em empresas longevas e bem estabelecidas, como Coca-Cola, American Express e Apple. Ela própria é uma empresa que aplica o Efeito Lindy.
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Nestlé: Fundada em 1866, a Nestlé continua crescendo e se adaptando, com marcas fortes como Nescafé, KitKat e Ninho. A empresa sobreviveu a duas guerras mundiais e continua sendo relevante.
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Banco Itaú: Um dos maiores bancos da América Latina, com mais de 90 anos de história. Mesmo diante do crescimento dos bancos digitais, o Itaú se adapta e inova, mantendo sua posição dominante.
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Empresas do setor de energia: Petroleiras como ExxonMobil ou Petrobrás são exemplos de companhias que, mesmo diante da transição energética, continuam sendo peças-chave da economia global.
Considerações finais
O Efeito Lindy nos mostra que o tempo é um excelente teste de qualidade. O que sobrevive, provavelmente é mais robusto, mais adaptável e mais resistente do que o que é novo e ainda não testado.
No mundo dos investimentos, essa mentalidade pode ajudar a evitar armadilhas, reduzir riscos e trazer mais tranquilidade para o investidor de longo prazo. Em vez de correr atrás do novo o tempo todo, talvez seja melhor prestar atenção ao que já se mostrou valioso e continua sendo.
Em um mercado onde a tentação de buscar “o próximo grande investimento” é constante, aplicar o Efeito Lindy é um lembrete poderoso: às vezes, o melhor investimento é aquele que já provou seu valor há muito tempo.
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